quarta-feira, 10 de março de 2010
“Oficina de Arte”: Trabalho a Quatro Mãos

A “Oficina de Artes” é um projeto auto-sustentável realizado no Solar das Magnólias que se utiliza das atividades manuais como estratégia de reabilitação, focando a construção da subjetividade do paciente residente.
Os produtos confeccionados são comercializados no Solar das Magnólias e/ou feiras promovidas pela própria entidade (Mostra de Arte Inclusiva do Solar). Com o resultado das vendas, o dinheiro é revertido para a manutenção da oficina e gratificação dos pacientes residentes pelo trabalho realizado. Desta forma exige um compromisso estético com o produto, para que possa ser apreciado e almejado pelo consumidor.

Diante das limitações físicas e cognitivas do paciente residente, utilizamos diferentes recursos e técnicas que entre outras questões viabilizam a qualidade do produto realizado, como também a maior independência dos pacientes na sua execução, o desenvolvimento de suas habilidades e a possibilidade de satisfação pessoal no nível máximo de sua vida ocupacional.
Um dos procedimentos empregados na oficina é o desmembramento das atividades, dividindo-as em etapas, por exemplo, na pintura em painéis há seis etapas.
Cada etapa requer um conjunto de habilidades que pode ou não estar desenvolvidos no paciente. Deste modo ele pode executá-las com diferentes graus de independência: independente, com supervisão, com auxílio máximo, médio, mínimo e dependente. Deste modo o paciente é acompanhado na realização da tarefa recebendo auxílios conforme sua necessidade, quando ele não consegue realizá-las fica a cargo do terapeuta.
Para exemplificar, no quadro a seguir estão descritas as etapas de um projeto (painéis), e o grau de independência para cada etapa de um paciente residente freqüentador da “Oficina de Artes”.

Etapas da Atividade
Grau de independência
Observações
1º) Planejamento do projeto (processo de criação, escolha de cores, formas)
Dependente
Participa do processo, escolhendo painel e sugerindo cores.
2º) Passar massa texturizado
Independente
3º) Passar massa acrílica
Auxilio médio
4º) 1ª demão de tinta
Independente
5º) 2ª demão de tinta
Auxílio mínimo
6º) Relevos
Auxílio máximo

O paciente citado realiza duas etapas sem nenhum auxílio, as demais precisam de ajuda sistemática, ou seja, ele apresenta dependência para realização do trabalho. Desta forma muitas vezes somos questionados qual a validade da nossa prática. Ora é compreensiva a crítica, pois o produto em si não revela os bastidores.

Embora o paciente residente não faça todas as etapas, ele acompanha todos os procedimentos e tem apropriação do seu trabalho, apresentando o sentimento de realização e gerando expectativas em relação aceitação do produto. Atualmente apenas um paciente realiza todas as etapas com independência.

Frases como “tá bom”, “tá bonito”, “errei”, “vamos trabalhar”, “eu fiz”, permeia todo o processo do fazer, demonstrando o esforço, dedicação, o desenvolvimento da percepção e do senso crítico.

Ressaltamos também a iniciativa e preferências, como o paciente que citamos no texto, ele escolhe o que quer fazer e pede o material que deseja usar, caso contrário não o faz; ou quando só aceita fazer etapas avançadas do trabalho, não aceitando, por exemplo, lixar uma caixa, alias etapa importante, mas nada agradável.

Há situações que eles gostam de sair da oficina, sujos de tinta, nessa ocasião, como não pensar na identidade que essa atividade está gerando, a ponta de quererem exteriorizar que trabalham.

Cada peça que confeccionamos trama uma história única, que envolve a relação terapeuta/paciente, gerando um sentimento de pertencimento de um grupo, a convivência, o exercício da práxis, possibilitando a construção de um cotidiano enriquecido por ações e emoções que validam o existir e dá sentido ao “fazer”, possibilitando uma identidade singular no ambiente institucional.

E são nessas questões que se encontra o processo terapêutico do nosso trabalho. Tendo seu auge quando tornado ao público e investido nas relações sociais.


Andrea Franchi- Psicopedagoga
Liege Flávia da Silva- Terapeuta Ocupacional

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